sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma carta de alunos egressos

Aos prezados senhores,

Tito Lívio Lermen
Leandro Otto Hofstätter
Professores do curso de Comunicação Social

Manifesto à situação dos cursos de Comunicação Social no Bom Jesus/Ielusc


Seria prazeroso refletir sobre o presente sabendo que este é tão proveitoso quanto foi o passado. Infelizmente o balanço que fazemos hoje não está próximo da altura de alguns anos atrás. O objeto em questão é a qualidade de ensino do Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, da Associação Educacional Bom Jesus/Ielusc. O que propomos nesta carta, não é criticar o presente, mas questioná-lo por meio das experiências que vivemos no período em que fomos alunos desta instituição.

Era início de 2005 quando começamos a nos construir mais do que como profissionais, mas também como sujeitos humanos críticos. Não existe momento para questionar, e se durante os quatro anos e meio em que permanecemos no Ielusc não tivemos atitude para tentar mudar o que era malfeito no curso, hoje externamos através deste manifesto nossa indignação.

É com convicção que afirmamos que foi graças ao peso teórico que tivemos que hoje somos o que somos. Discussões teóricas e abstratas, a pesquisa e a extensão suscitaram na base desta turma algo que dificilmente um aluno que se forme atualmente terá: senso crítico.

Foi pela profundidade das discussões teóricas, que conseguimos pensar numa sociedade onde as relações sociais se constituem para além do mercado. São experiências baseadas na ética e no comprometimento com a dignidade humana. E se hoje pensamos desta maneira foi porque tivemos aulas com professores como Pedro Russi, Jacques Mick, Silnei Soares, Samuel Pantoja Lima, Juciano Lacerda e Luis Felipe Soares que não pensam apenas no jornalismo barato produzido diariamente em redações e assessorias, mas que nos prepararam para buscar alternativas às informações divulgadas sem o mínimo de compromisso com o que podemos chamar de social.

Por causa deste seleto corpo docente, pela qualidade da revista Rastros e pelo incentivo à pesquisa que o curso chegou a uma nota tão elevada na Capes. O nome desta instituição foi lembrado e defendido com afinco nos congressos organizados pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação graças ao esforço destes e de outros professores (como Maria Elisa Maximo e Fernanda Cruz) que nos mostraram o caminho da pesquisa.

As experiências vividas em aula com os professores e com os colegas foram tão marcantes, que não tiveram fim quando o curso acabou. É com a iniciação recebida no Ielusc que hoje encontramos textos como o de Jorge Larrosa Bondía, “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”, que nos ajuda a refletir sobre o momento vivido pela instituição. “O homem é palavra”, diz Larrosa, prosseguindo o raciocínio: “quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos” (LARROSA BONDÍA, 2002, p. 21). Em nossa formação, percebemos que a função do jornalista não é só registrar e repassar dados e informações, mas sim refletir de modo crítico sobre sua atividade para compreender o mundo e se fazer compreender pelos outros.

Foi com as pesquisas e com a monografia que aprendemos a discutir teoricamente. Por meio da paixão por nossos objetos de estudo que construímos noções de vida e o que nos fez crescer intelectualmente. Foi por meio das experiências com o Primeira Pauta, com os grupos de discussão, com a Revi e com o Necom que nós recebemos o diploma de jornalistas e não o de robôs de redação que cumprem suas pautas e depois saem sem olhar pra trás.

A Revi, especificamente, incorporou o sistema de “agência de notícias ielusquianas”. Esse sempre foi o ponto fraco da revista eletrônica, mas seus coordenadores e estagiários tentavam evitar a reprodução das notícias do campus, buscando matérias inusitadas, fazendo séries de reportagens, experimentando as linguagens e mesclando os gêneros de escrita. Hoje, o que se vê, é mera formalidade, salvo algumas exceções e tentativas de diferenciação. É muito triste, para nós que convivemos com esse meio, ver uma ferramenta de comunicação sem utilização, sem ser explorada.

Foi por causa de um projeto vinculado ao Necom que o Ielusc desbancou universidades consolidadas no país como UFSC, UFPR e UFRGS. Isso aconteceu em 2007, quando o “Jornal do Paraíso” foi escolhido como o melhor impresso produzido no sul do Brasil pela Intercom. Foi por meio de todo o trabalho desenvolvido neste projeto, aliás, que uma comunidade inteira parou de ser estigmatizada como local violento. O processo de produção do “Jornal do Paraíso” trouxe autoestima para quem vive ou trabalha no Jardim Paraíso. Com este comprometimento foi possível fazer com que a imprensa joinvilense parasse de rotular aquelas pessoas. Já os bolsistas que se dedicaram ao projeto, hoje estão empregados. Assim como muitos que trabalharam na Revi.

Mas hoje o que percebemos é um esforço para acabar com tudo o que nos fez profissionais com senso crítico. A pesquisa foi jogada para escanteio. Os alunos não recebem incentivos para participar de congressos, reuniões seminários e conferências. Muitos sequer sabem o que é pesquisa e como ela é feita. Infelizmente, os novos alunos de Publicidade saberão menos ainda com a extinção da monografia. Ter uma vida dentro da academia parece ser algo utópico.

Perguntamos-nos o porquê de transformar pensantes em máquinas. Que tipo de instituição é essa que exclui a única oportunidade de contato que estes alunos teriam com a pesquisa depois em um mestrado ou doutorado? Nesta turma de 2005, felizmente alguns alunos já estão no mestrado em universidades com bom reconhecimento. Ingressaram em programas de pós-graduação que, em muitos casos, sequer são da área de formação – prova, até então, do comprometimento do Ielusc com a formação de seus alunos.

Hoje, no entanto, os egressos tendem a ser absorvidos por um mercado escravizante. Neste momento, não conseguimos enxergar o pilar ensino, pesquisa e extensão proposto pelo Ielusc. Se a administração precisa fazer redução de custos, que faça, mas não do modo como vem acontecendo.

Nesse momento, podemos nos valer novamente de Larrosa (2002, p. 27) que diz: “O conhecimento é basicamente mercadoria, tão sujeito à rentabilidade e à circulação acelerada como o dinheiro”. Por que a academia precisa ser um local de produção? Por que não pode ser o momento em que o estudante para e analisa o que está sendo reproduzido pela mídia. Por que ele tem que copiar e incorporar os cacoetes já reiterados pelos grandes grupos de comunicação. Por que o estudante não pode fazer da academia o lugar da experimentação?

Se o Ielusc quer algo que dê lucro, que não seja por meio da formação de jornalistas-robôs. Se for para este fim, que tenha outro tipo de atividade: uma editora ou uma gráfica e não uma instituição de ensino, que deveria ensinar seus alunos a pensar.



Cordialmente,
Djulia Justen
Keila Stoeberl
Letícia Caroline
Priscila Noernberg
Tiago Luis Pereira
Egressos do Curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo

Joinville, 30 de junho de 2010.

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REFERÊNCIA
LARROSA BONDÍA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação. Campinas, nº 19, jan/fev/mar/abr, 2002, p. 20-28.

3 comentários:

Juciano Lacerda disse...

Meus caros, fiquei impressionado pela contundência, clareza, fundamentação e beleza desta carta. Fizemos história no Ielusc e guardo toda esta experiência para a minha vida. E sei que ainda é possível fazer o presente e o futuro! Que a direção possa olhar esta carta com atenção, cuidado e zelo pedagógico. Parabéns a todos, egressos e atuais alunos, por lutarem pela dignidade de sua formação. Saudações acadêmicas, Juciano Lacerda.

9 de julho de 2010 12:44
Marcus Vinícius disse...

É ótimo fazer parte de uma comunidade acadêmica que dialoga com estudantes egressos, docentes e ex-deocentes... Acho que realmente este é o caminho...

Todos estes depoimentos nos ajudarão nesse momento delicado.

9 de julho de 2010 18:20
Rafael A. Silva disse...

"algo que dificilmente um aluno que se forme atualmente terá: senso crítico"
"um esforço para acabar com tudo o que nos fez profissionais com senso crítico"
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Quero acreditar que não tenha sido a intenção dos autores mas o tom do texto soa absolutamente desrespeitoso para com os atuais alunos, e arrogante para os CINCO estudantes que deixaram a instituição.
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Respeitosamente,
Rafael Alexandre Silva

10 de julho de 2010 11:53

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