quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma visão de "fora" sobre a crise

O que era boato há anos está se confirmando. A crise do Bom Jesus/Ielusc finalmente se concretizou, e agora ameaça um dos maiores patrimônios políticos e culturais da cidade de Joinville nesta década: o único curso de Jornalismo da cidade.

Com menos de 10 anos, o Ensino Superior do Ielusc começou a dar sinais de falência quando cancelaram o vestibular para o curso de Turismo. Até então, todo mundo achava que era um caso isolado. Mas ao era. Logo em seguida, os vestibulares não tinham mais tantos inscritos, e pouco a pouco, foram sendo canceladas novas turmas também na Educação Física.

Agora, o curso de Comunicação é o alvo. Ele já estava se deteriorando, após a demissão de vários professores qualificados, diminuição das horas-aula, dos projetos de extensão como a Revi e o Necom, a erradicação da direção do curso de publicidade, entre outras medidas. Mas agora a coisa complicou. Gleber Pieniz, um dos últimos professores que ainda resistiam à nova política do Ielusc, foi demitido. E a direção anuncia: talvez não haja mais um vestibular para o curso de comunicação no final de 2010.

Todas essas medidas têm graves consequências, não só para os alunos, mas para a sociedade. O Ielusc está desmontando o terceiro melhor curso de Jornalismo do Sul do Brasil, que está (ou estava) a frente das federais de Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Os cursos de comunicação do Bom Jesus/Ielusc são verdadeiros patrimônios culturais e políticos da cidade. Foi a partir do ensino oferecido por esta instituição que a imprensa e a publicidade locais saíram da era medieval, do clientelismo, da extorsão, e foram profissionalizadas.

Lembro-me do dia em que, na posição de presidente do DCE Florestan Fernandes, eu e outros seis companheiros pedimos a cassação do vereador Lauro Kalfels (PSDB), pela tentativa de suborno de uma profissional do Jornal A Notícia. Apesar do pedido ter sido arquivado, a publicização do caso ajudou a inibir novas ocorrências. Foi também pelos alunos de jornalismo do Ielusc que denunciamos um grave caso de homofobia, quando o radialista Beto Gebaili afirmou ter agredido outro radialista da cidade sob a justificativa de que "em bicha se bate com a mão". Tive a honra de editar essa matéria no finado jornal-mural "Cafeína". O que era apenas exercício de aula se transformou em um debate público, com grande repercussão na cidade.

Esse e outros combates resultaram, em médio prazo, na derrocada de figuras que praticam o pior que pode haver em radialismo, jornalismo e comunicação. É só ver que muitos dos programas de achincalhamento político foram cancelados ou transferidos para emissoras menores.

A formação humana propiciada pelo Ielusc foi parcialmente responsável também pela reorganização do movimento estudantil na cidade. Nos últimos anos, nossos alunos do Ielusc se envolveram em grandes mobilizações contra o aumento das tarifas, pela democratização das comunicações, pelos direitos humanos e por uma sociedade mais justa.

Isso não é qualquer coisa.

A situação não é exclusividade do Ielusc. O sistema Acafe, do qual o Ielusc faz parte, beira o colapso. Univille e outras instituições também correm sérios riscos. O Ielusc sente primeiro pois é o elo fraco do sistema: é uma das menores instituições. O sistema Acafe é responsável por 70% das vagas do ensino superior em Santa Catarina. Faz parte da estratégia dos tubarões do ensino privado levar o sistema Acafe à falência.

Aos olhos dos donos do Ensino Privado, Santa Catarina é um mercado em expansão. Basta apenas destruir as instituições comunitárias para que elas sejam privatizadas. São 120 mil alunos pagantes, ou seja, um potencial mercado para PUCs, Anhangueras, Estácios e outras tantas universidades que negociam ações nas bolsas de valores.

Não vejo, pelo menos nesse momento, outra solução para o impasse além de pressionar o poder público para que absorva os cursos superiores das universidades em crise. A melhor solução para os alunos, para Joinville e para Santa Catarina seria, sem sombra de dúvida, a federalização da Univille e a absorção dos cursos do Bom Jesus/Ielusc por esta nova federal.

Nós, ex-alunos e ex-professores, devemos nos mobilizar para impedir o fechamento do curso, garantir um ensino de qualidade e garantir que os estudantes não sejam abandonados.

Enquanto jornalista formado por esta instituição, enquanto ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes Florestan Fernandes e agora, enquanto candidato a deputado federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), me coloco a inteira disposição dos alunos, professores e funcionários para tentar encontrar soluções para o Ielusc.

Também quero através desta carta me solidarizar com o Diretório Acadêmico Cruz e Souza (DACS) que trava uma luta pela transparência nas contas da Faculdade. Como entidade pública (apesar do caráter privado), é obrigação do departamento financeiro abrir as contas para a comunidade acadêmica. Esta é uma luta muito dura, iniciada antes da minha geração e continuada até hoje pelo movimento estudantil ielusquiano.

Venho me solidarizar também com o professor Gleber Pieniz, de quem fui aluno em mais de uma oportunidade, e parabenizá-lo pela coragem.


Grande Abraço

*Leonel Camasão
Jornalista Profissional




*Leonel Camasão é jornalista formado pelo Bom Jesus/Ielusc e ex-presidente do DCE Florestan Fernandes.

14 comentários:

Jani disse...

É ISSO AÍ! Todos para a Univille ano que vem. Sem sombra de dúvida é a melhor coisa a fazer.

9 de julho de 2010 06:56
Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Uma cidade como Joinville ficar sem curso de Comunicação Social não faz nem sentido, uma provável melhor solução realmente seria pressionar o poder público e passar para alguma UNIVERSIDADE como Univille!

9 de julho de 2010 07:01
Marcus Vinícius disse...

As duas insituições realmente iriam se unir, mas diversos diferenças pedagógicas e jurícas impossibilitam esta união...

Na verdade, todo o sistema Acafe está em crise, o ideal seria retomar uma comissão pró-federalização dessas insituições como Univille e Ielusc

9 de julho de 2010 07:05
Luana Faraco disse...

Com concordo com a Marina é uma vergonha Joinville deixar de ter uma faculdade de comunicação social, alguma providencia deveria ser tomada, a incorporação a Univille é umaotima ideia!

9 de julho de 2010 07:08
Emanuelle disse...

Vou escrever aqui o que postei no bog do Felps, acho que cabe.

Segue

Eu Emanuelle, estudo no ielusc há quase cinco anos. E como a grande maioria dos estudantes,senti profundamente as mudanças no curso.
Dialogar com ex docentes, chamar ex alunos, conselhos comunitários, fórum de comunicação e quem pensa a comunicação na cidade é talvez a única estratégia que nos sobra. O contato com a comunidade será nosso respiro. Enviar através de uma carta à imprensa, aos camaradas, aos sindicatos, ao governo sobre os problemas que temos passado, e a maneira como nos é apresentado os problemas e o descaso com os pedidos do corpo discente.
Essa é a chance dos acadêmicos se unirem. Mostrar que é possível sim fazer uma faculdade diferente, que e possível ir na contra-mão do ensino superior brasileiro, como acontecia há anos atrás nessa instituição.
Temos o apoio de dezenas de profissionais já formados. Nas redações já é sabido do triste desfecho do curso. Acho que o passo agora é mobilizar mais apoiadores.

Por que é preciso mobilizar a sociedade?

O Ielusc é uma instituição sem fins lucrativos.
Recebe incentivo do governo para que possa continuar de portas abertas. Sendo assim, há dinheiro público investido. Há o imposto do mercado, há o imposo do advogado, do servidor público. É então dever da sociedade fiscalizar como esse investimento governamental está sendo gerido.
Além disso estamos falando de educação. Já é hora da sociedade - pelo menos do pares acadêmicos - se atentarem pro fato de que esta é uma política pública que deve ser fiscalizada com mais rigor. Não podemos permitir a formação de profissionais de comunicação que tenham uma visão prejudicada de educação, sociedade, ensino.
Se a lição que nós alunos estamos aprendendo é que não há diálogo com a sua instituição de ensino alguma coisa está errada.
Ao invés de nos provocar o debate nosso curso nos robotiza e nos faz aceitar suas imposições?
Compreendo que a maioria destas decisões não partem da coordenação do curso - que apesar de mostrar-se interessada pela qualidade do ensino não sido transparente ao dialogar - sabemos que a "coisa é mais embaixo". Há no alto do sino do pátio a ordem:

_Cortem as cabeças! Cortem as cabeças!

Não é assim que funciona. Pelo menos vamos mostrar que não é.
A gente não pode se esquecer que há um detalhe nisso tudo:
ESTAMOS PAGANDO POR UM ENSINO SUPERIOR QUE NÃO CONDIZ COM O QUE NOS FOI OFERECIDO NO COMEÇO DO CURSO.
Estamos tirando quase R$800 reais por mês para ter dúvidas se esse é mesmo o caminho a seguir. Vamos pagar mais de 35 mil reais para uma formação que não e exatamento o que esperávamos?
Devemos pedir, e se preciso for, exigir diálogo.
#MobilizaIelusc é a campanha.
Beijos compas.

9 de julho de 2010 07:27
Jani disse...

Se o mesmo aconteceu com o curso de Educação Física (que foi para a Univille), poque não os cursos de Comunicação Social? E a mensalidade dos cursos na Univille são mais em conta. Falei para um amigo meu que estuda na Univille quanto pagamos no IELUSC por mês. Ele não acreditou, pois está mais caro que lá. Não vamos esperar fechar o curso. Tem que vender para a Univille, um lugar onde tem uma ótima estrutura, e professores de Universidade mesmo, não de ensino médio!

9 de julho de 2010 07:41
Marcus Vinícius disse...

Existem inúmeros cálculos... Pagamos mais caro, mas alguns laboratórios nossos são melhores do que os da Univille, inclusive nossos professores recebem (recebiam) mais do que os professores da Univille. O grande problema é que toda essa nossa qualidade despancou e o preço continua sendo mais alto uhauhauha Agora os laboradores estão sem investimento, e os professores demitidos... A mensalidade vai baixar?

9 de julho de 2010 10:19
Jani disse...

Quais laboratórios são melhores que os da Univille? O curso de Sistemas tem 3 laboratórios exclusivos do curso. Design tem 2 laboratórios e + 1 só de MAC. Uso exclusivo do curso também. Seria interessante vocês fazerem uma visita na Univille, olharem as novidades e fazer uma comparação do que é melhor ou não que o IELUSC! ;)

9 de julho de 2010 14:20
Jani disse...

Não vou desistir do curso de PP, mas acredito que todos nós merecemos um lugar com uma estrutura melhor para estudar.

9 de julho de 2010 14:23
Marcus Vinícius disse...

Tens Razão Jani, eu quis dizer que JÁ TIVEMOS coisas de qualidade, infelizmente agora todas as outras faculdades passaram na nossa frente em questão de estrutura e ainda pagamos mais caro, é um absurdo essa mensalidade

9 de julho de 2010 18:16
Sílvio Melatti disse...

Manu, o Ielusc não recebe dinheiro do governo. Não há investimento de verba pública em instituições privadas.
Leonel, concordo com boa parte de sua análise, exceto quando se refere à "demissão de professores qualificados", também referida na carta dos ex-alunos. É preciso dizer que aqueles professores (Felipe Soares, Jacques Mick, Pedro Russi, Samuca, Juciano Lacerda, Silnei Soares, Fernanda Guimarães) saíram por vontade própria, para dar seguimento a suas carreiras acadêmicas em instituições federais. O mesmo ocorreu com o professor Gleber Pieniz, que manifestou interesse na demissão para se dedicar ao doutorado. E substituir um time desses é tarefa árdua para qualquer instituição.
Sim, agora houve redução de carga horária e não-renovação de contratos de alguns professores, mas esperamos que seja uma medida temporária, para garantir a continuidade do curso e, quem sabe, a sua recuperação. Porque de fato ocorreu uma drástica redução no número de alunos e na média de créditos por aluno. E a única receita, repito, vem das mensalidades. A equação da crise é complexa.

10 de julho de 2010 13:07
Marcus Vinícius disse...

Melatti.

"A equação da crise é complexa". Exato. Tão complexa que não cabe nem a você justificar atitudes da insituilção com base nesta matemática. Como amigo, digo que você, Silvio, está encurralado entre os deveres do trabalho e o ideal jornalístico.

Eu acredito que os cortes na carga horária e nas atividades extra classe, além da falta de diálogo entre direção e docentes, somados ao pessimismo permanente, viraram sinônimos de demissão.

Nenhum profissional sonha em atuar uma instiuição como o IELUSC.

O mesmo se aplica a redução de alunos.

O que os dirigentes luteranos querem? Arrumar o problema na sua raíz ou tampar o sol com peneira?

12 de julho de 2010 11:53
Sílvio Melatti disse...

Marcus:
Mesmo que só o ideal jornalístico me mobilizasse, eu ainda sentiria a obrigação de vir aqui para esclarecer inverdades do tipo "Ielusc recebe verba pública", ou equívocos como o de tratar por igual o que é diferente. Os deveres do trabalho me levam a lutar pela continuidade do curso, o que implica, entre outras coisas, combater o "discurso do desmonte". Por enquanto esses dois eixos não me parecem incompatíveis.

14 de julho de 2010 21:20

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